A Não-Revolução

Uma explicação sobre a Mitologia, por Roselle Angwin

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“O mito é a porta secreta através da qual as inexauríveis energias do cosmos se derramam sobre as manifestações culturais humanas.”

Joseph Campbell


Nossa sociedade de fim de milênio dedica boa parte do tempo ao “mundo exterior”. Ao Elegê-lo nossa principal realidade, esquecemos a riqueza do mundo interior e hoje pagamos o preço. “Onde não há visão, as pessoas se perdem”, mas tanto a visão quanto a sabedoria exigem a disposição de olhar para dentro.

No entanto, por mais que tentemos ignorá-la ou fugir dela, existe uma profunda necessidade intrínseca ao psiquismo humano no sentido de mudar, crescer e evoluir; trocar a sensação de isolamento e limitação pela de realização, integração e unidade com todas as formas de vida. Em vez de uma simples busca de prazer ou felicidade, o que buscamos, num nível mais profundo, é a plenitude, a liberdade, a finalidade. Contudo, a humanidade atingiu um ponto em que não apenas a alma de cada um de nós como também a alma do mundo, a anima mundi, encontram-se ameaçadas. A própria palavra “alma” em si foi depreciada, superada, vulgarizada e literalmente desnaturada. A imaginação e o sentido tornaram-se espécies em extinção num mundo que valoriza acima de tudo a informação fatual e a devoração de tudo aquilo que tenha o azar de ser rotulado como um “recurso”. Resta aos artistas, poetas, músicos, escritores e visionários – que já ocuparam o coração da sociedade, apesar de hoje estarem em sua periferia – a tarefa de manter aceso o fogo da sabedoria, da inspiração e da imaginação.

Nós temos, é claro, uma opção. Podemos continuar a ignorar vozes interiores, a fugir de nossas próprias sombras, a ver em tudo lá fora o “inimigo”. Podemos fingir que está tudo em ordem e alimentar o vazio interior com guloseimas exteriores. Podemos continuar expulsando nossos deuses e deusas interiores, nossos anjos e demônios, mantendo-os inconscientes do que estamos fazendo a nós mesmos e ao mundo em que vivemos. Mas os velhos deuses e deusas do panteão do reino interior sabem como exercer seu domínio quando são desprezados por muito tempo – no plano íntimo, através de crises pessoais; no plano coletivo, através de guerras, violência social, revoluções, regimes governamentais opressivos e assim por diante.

Ou podemos optar por tomar o outro caminho, ouvindo as vozes interiores e buscando formas de reabilitar a alma do mundo. Em outras palavras, se nos dispusermos, com confiança e abertura, a percorrer os locais secretos de nossos mundos interiores, do nosso inconsciente, podemos acabar descobrindo que aquilo que temíamos que fosse sombrio e horripilante é na verdade um tesouro de riquezas. Além disso, se empreendermos esse percurso de bom grado, talvez consigamos evitar algumas das ameaças que o desconhecimento do inconsciente costuma desencadear na nossa vida!

Uma das formas de entrar no mundo do inconsciente é cruzar os portões do mito. A mitologia, conforme frisa a escritora Lindsay Clarke, cria uma ponte entre o sentimento e o sentido, convertendo a matéria-prima em matéria organizada.

Os mitos e as lendas, como a da “A Busca do Santo Graal”, por exemplo, incorporam verdades universais que podem levar-nos à transformação. Embora aparentemente representem fatos históricos ou fictícios exteriores, eles na verdade são mapas de jornadas interiores psicológicas ou espirituais.

Os mitos falam diretamente ao nosso subconsciente, referindo-se aos arquétipos de nossos mundos interiores através de uma linguagem simbólica que, passando por cima dos processos racionais do pensamento, deflagra a imaginação criadora. Os mitos carregam em si energia, são como degraus entre um mundo e outro. Devido à sua natureza arquetípica, eles nos fornecem também uma ponte entre o particular e o universal. Através dos mitos, nossas dores e alegrias tornam-se a um só tempo maiores e menores que quando vistas do isolamento individual – menores porque o mito nos possibilita uma perspectiva mais ampla da “condição humana”. O mito, além disso, nos dá um distanciamento que nos permite romper com nossa forma habitual de ver e de ser, possibilitando-nos explorar os padrões recorrentes em nossa vida de um modo menos ameaçador porque ele é menos pessoal.

Assim, o que chamamos de Mitologia Pessoal diz respeito à alma, â imaginação, ao abrir os olhos interiores, trazendo à luz da consciência aquilo que é inconsciente. A Mitologia Pessoal visa restabelecer a linguagem dos símbolos e o sentido num mundo que parece estar cada vez mais árido, mais violento e destrutivamente mais cego. Para tanto, um passo fundamental é optar por viver – pelo máximo de tempo – da forma mais consciente e menos prejudicial possível. O oráculo de Delfos tinha uma mensagem: “Conhece-te a ti mesmo”. Tomar o caminho que conduz ao autoconhecimento significa reconhecer que criamos e recriamos o mundo a cada instante, no modo como vivemos. Isso é em si uma contribuição positiva que nos fortalece muito – ela pode valer como um sopro nas brasas de nosso fogo estelar, iluminando não só o nosso caminho como o dos que vierem depois.

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O texto acima é o prólogo do livro Cavalgando o Dragão, de Roselle Angwin, que postei para explicar a finalidade dos mitos, contos e lendas que irei postar de vez em quando aqui no blog. Que as jornadas dos antigos possam iluminar os buscadores modernos!

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março 28, 2009 - Posted by | Mitologia, Sophia Recomenda

2 Comentários »

  1. Será que os mitos não estão tão arraigados na psiquê humana que chegamos a um momento que desraiza-los seria perder uma parte de nós mesmos ?

    Comentário por Lucas Saad | março 28, 2009 | Responder

  2. Muito bom o texto Gabriel…

    Bem interessante, nesse mundo de hoje imagino que dar uma resgatada nisso seria bom para esquecer nossos problemas de hoje em dia…

    Comentário por Daniel "Podolski" Santiago | março 31, 2009 | Responder


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