A Não-Revolução

A Folha Amarela

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Estava no meu altar meditando um pouco sobre uns problemas quando resolvi tirar uma carta do meu “A Descoberta de Buda”, um baralho com 52 sutras do Dhammapada (texto budista) comentados por Osho. Saiu o sutra 26:

“Você é como a folha amarela.

Os mensageiros da morte estão à mão.

Você tem que viajar para longe.

O que você levará consigo?”


Embora uma das idéias mais centrais do Budismo seja a compaixão, ele não tenta te consolar com nenhuma promessa. Pelo contrário, ele te acorda para a realidade com um tapa na cara (em algumas escolas Zen isso é literal rss). Não há eufemismos, não há cerimônias. Seja você rico ou pobre, grande ou pequeno, você vai morrer. Que problema é grande frente a certeza da morte?

Logo após esse choque de realidade, saí para resolver alguns assuntos mundanos e na volta dei uma passada no supermercado. Estava com Amanda na fila do caixa quando notamos o senhor que estava à nossa frente. Ele se abaixava devagar, apanhava uma compra da cesta, e colocava no caixa. Se abaixava novamente, trêmulo, e repetia o gesto. Após pensar se deveria ou não ajudar, levantei a cesta do chão para que ele não precisasse fazer tanto esforço. Ele agradeceu a gentileza, e pediu ao caixa que lhe empacotasse as compras: alguns quilos de carne e garrafas de cerveja, certamente para o carnaval. Enquanto o caixa registrava e ensacava, o senhor aguardava segurando o cartão de crédito com as mãos tão trêmulas que parecia que iam deixá-lo cair a qualquer momento. Perguntei a Amanda se era artrose, ela me disse que era Parkinson.

Não pude deixar de ligar a cena do mercado ao sutra da folha amarela. Para quem está nos seus vinte e poucos anos, a velhice e a morte são conceitos abstratos, assuntos para pensar daqui a algumas décadas. Mas algo, por um momento, me fez ser aquele homem, lutando com dignidade para conseguir fazer suas compras. Para ser útil à sua família, e não um peso morto. Entendi que aquele homem sou eu amanhã. Que a morte é real, e que um dia terei de prestar contas a ela. Até lá – o que tenho de fazer? O que devo conseguir que seja possível levar para além da morte?

Voltei para casa, e o primeiro tópico do Orkut que abri respondeu minha pergunta com um vídeo (clique AQUI).

E você? O que levará quando for para o lado de lá?

fevereiro 21, 2009 Posted by | Budismo, Morte | 4 Comentários