A Não-Revolução

Porque sou contra as cotas

igualdade

por Gabriel Antunes

Realizei o vestibular esse ano para a UFRJ e a UERJ, e consegui desempenho quase idêntico nas duas. A diferença é que na primeira eu passei normalmente, e na segunda, quase perdi minha vaga (estou esperando pela reclassificação). Andei pelo orkut procurando opiniões sobre o sistema de cotas, e me supreendi com a natureza dos ataques àqueles que as criticam. Quem não concorda com elas é tachado de “filhinho de papai”, de “burro” (e é chamado assim inclusive por cotistas cuja nota foi bem menor…), de insensível em relação à realidade brasileira. Após a leitura de alguns artigos, e o debate com colegas, cheguei às seguintes conclusões, do porque de eu ser contra as cotas:

Porque são inconstitucionais

Elas ferem o artigo 19 da Constituição Federal: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si”. E o artigo 208: “O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um”.

Porque se baseiam em critérios inadequados de classificação

Para a biologia, as raças não existem. O critério de autodeclaração é extremamente vago, ainda mais em se tratando de Brasil, país conhecido pela sua miscigenação. Existe um caso registrado de gêmeos idênticos em que um foi aceito como cotista, e o outro, não.

Porque desviam a atenção do problema principal, que é a deficiência do ensino público

Enquanto nos contentamos, ou perdemos tempo discutindo a validade dessa medida paliativa (as cotas), esquecemos completamente do problema principal: a má qualidade da educação pública. Se queremos um país com justiça social, não devemos dar “cala-bocas” para o povo, mas sim, voltar aos tempos em que o filho do rico e o filho do pobre estudavam na mesma escola.

Porque são uma expressão de racismo, preconceito e intolerância

A primeira coisa necessária para existir a intolerância racial ou social é a classificação das pessoas em critérios raciais ou sociais. As oportunidades de uma pessoa devem existir em função do seu mérito, do seu caráter e da sua vontade de progredir, e não em função da sua cor de pele ou do contra-cheque dos seus pais.

Porque não cumprem o que se propõem a fazer

Permitindo o acesso diferenciado para alguns alunos, gera-se não apenas um ódio por conta dos desfavorecidos por esse sistema, mas também um questionamento quanto à capacidade do profissional que irá sair dessa faculdade. Esses dois fenômenos, por si só, já solapam a intenção original de criar mais igualdade social.

Porque a justificativa da “dívida social” é absurda

Não se combate uma injustiça criando outra. Eu não tive escravos, nem meus pais. Nunca tivemos empregada em nossa casa, e somos nós mesmos que suamos e nos sujamos nas tarefas domésticas. Aqueles que realmente são culpados, e aqueles que realmente merecem reparação já estão mortos há muito tempo. E a melhor maneira de apagar essa mancha da história é simplesmente parando de falar nela.

Porque estimulam o oportunismo

Quem aqui não conhece um exemplo de alguém que tenha estudado em escolas boas, tenha condições financeiras suficientes, plena condição de concorrer normalmente com os não-cotistas, mas marcou a cota apenas para garantir o próprio lugar ao Sol? Isso se chama oportunismo, roubo, imoralidade, absurdo, e ocorre com freqüência.

Espanto-me quando leio no Orkut algo como “passei para a UFRJ e a UFF sem precisar de cotas, não sou um incapaz”. Já que teve chance de concorrer sem esse artifício, porque não o fez? O negócio é se dar bem a qualquer custo, dane-se se é certo ou não?

Apesar de o Governo Federal estar tentando criar cotas para concursos públicos, e até mesmo para empresas privadas, vou terminar com uma frase que li durante a pesquisa para esse artigo:

Na VIDA não existem cotas.

PS.: Apesar dos argumentos acima citados, sou a favor da reserva de vagas para deficientes físicos em concursos públicos, pois estes possuem critérios objetivos para a sua classificação, e uma dificuldade óbvia de se inserirem no mercado de trabalho.

fevereiro 5, 2009 Posted by | Cotas, Política/Economia | 8 Comentários